Vivemos em uma época em que o debate público deixou de ser uma arena para o confronto de ideias e se transformou em um campo de batalha identitário. Nas redes sociais, nas mesas de jantar e nos ambientes de trabalho, a política tornou-se o grande divisor de águas da nossa rotina.
No entanto, por trás dos discursos inflamados, das discussões acaloradas e dos cancelamentos mútuos, há uma pergunta urgente que raramente nós fazemos: o que a sociedade realmente perde quando a divergência política se transforma em hostilidade?
A resposta é tão profunda quanto preocupante.
A perda não se mede apenas em votos ou alianças partidárias. Ela se reflete na destruição do tecido social e na paralisia do desenvolvimento de um país. O risco da erosão do tecido social e dos afetos produz a consequência mais imediata da polarização extrema é a quebra do convívio comunitário e familiar.
Amizades de décadas são rompidas por conta de uma postagem; famílias se dividem em grupos de mensagens opostos e evitam encontros festivos para evitar conflitos. Quando enxergamos o outro não apenas como alguém que pensa diferente, mas como uma ameaça moral ou um “inimigo a ser destruído”, perdemos a empatia.
A empatia é a cola social que permite a convivência harmônica entre os desiguais. Sem ela, a sociedade se fragmenta em bolhas isoladas e intolerantes. A divergência política, quando saudável, é o combustível da democracia.
É na troca de perspectivas distintas que surgem as melhores políticas públicas. Contudo, na polarização tóxica, a busca pela verdade e pela eficiência dá lugar ao dogmatismo.
Desafios como segurança pública, reforma tributária, educação e saúde não possuem respostas simplistas ou exclusivamente de “esquerda” ou “direita”. Quando o foco é derrubar a narrativa do adversário, propostas viáveis são rejeitadas simplesmente pelo fato de virem do “outro lado”.
Quem perde é a população, que continua convivendo com serviços públicos deficientes enquanto a classe política se consome em disputas narrativas. Um dos maiores perigos da intolerância política é o descrédito sistemático das instituições democráticas.
Quando a lógica passa a ser “tudo contra eles”, as regras do jogo democrático passam a ser vistas como meros obstáculos. A perda da confiança na imprensa, no Judiciário, nos processos eleitorais e na ciência abre espaço para o autoritarismo e a desinformação.
Uma sociedade que descrê de suas próprias instituições fica vulnerável a soluções messiânicas e demagógicas que prometem ordem à custa de liberdades fundamentais. A instabilidade e o clima de tensão permanente afastam investimentos e prejudicam o ambiente de negócios.
Investidores buscam previsibilidade e segurança jurídica que são elementos que se esvaem em cenários de constante beligerância política. Além disso, a polarização gera um enorme custo de saúde mental na população.
O estresse crônico gerado pelo bombardeio de notícias sensacionalistas e discussões agressivas reduz a produtividade, afeta a criatividade e drena a energia que poderia ser direcionada para a inovação e o empreendedorismo.
A divergência de opiniões não é o problema, ela é natural e desejável em qualquer sociedade livre. O verdadeiro perigo reside no afeto negativo e na recusa em reconhecer a legitimidade do outro.
Para recuperar o que foi perdido, a sociedade precisa resgatar:
- O valor da tolerância ativa
- Escuta qualificada
- Aprender a ouvir para compreender, e não apenas para rebater
- Foco em pautas comuns: Identificar pontos de convergência onde o bem-estar coletivo se sobrepõe a ideologias
- Verificação de fatos e maturidade digital
- Consumir informação de forma crítica e evitar a propagação de discursos de ódio.
Em última análise, a polarização desenfreada nos cobra um preço alto demais: a nossa própria capacidade de evoluir coletivamente. Nenhuma nação prospera quando dividida contra si mesma, e nenhuma democracia sobrevive sem a aceitação da diversidade de pensamento.
A política deve voltar a ser uma ferramenta de construção e mediação, e não um instrumento de segregação. Enquanto continuarmos tratando o debate público como um jogo de soma zero, onde o outro precisa ser aniquilado para que sejamos vitoriosos, quem continuará perdendo, invariavelmente, é toda a sociedade.
Tayon Berlanga é advogado e ex-presidente da 31ª Subseção da OAB Marília por dois mandatos consecutivos

